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Consignado privado ganha espaço entre trabalhadores em busca de crédito mais barato

Consignado privado ganha espaço entre trabalhadores em busca de crédito mais barato

Economia

Mariana Freitas

25/03/2026 às 17:05

Em um cenário ainda marcado por juros elevados no crédito ao consumo, trabalhadores com carteira assinada têm buscado alternativas menos onerosas para reorganizar as contas. Nesse contexto, o consignado privado voltou ao centro do debate econômico, impulsionado pela ampliação do acesso digital e pela possibilidade de desconto em folha, mecanismo que tende a reduzir o risco da operação e, por consequência, o custo do empréstimo.

O tema ganhou ainda mais relevância após a criação do programa federal voltado ao público celetista, lançado em 21 de março de 2025. Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego, a iniciativa passou a atender empregados do setor privado, trabalhadores domésticos, rurais, empregados de MEI e diretores não empregados com direito ao FGTS, ampliando o universo de pessoas aptas a contratar esse tipo de linha.

Os números ajudam a explicar esse movimento. Em 15 de janeiro de 2026, o governo informou que o programa já havia superado R$ 101 bilhões em empréstimos consignados, com mais de 17 milhões de contratos firmados e alcance superior a 8,5 milhões de trabalhadores formais. Em outubro de 2025, o mesmo programa já somava R$ 82,1 bilhões e mais de 7 milhões de beneficiados, indicando crescimento acelerado em poucos meses.

Na prática, a expansão da modalidade reflete uma mudança importante no comportamento financeiro das famílias. Em vez de recorrer ao crédito pessoal tradicional, que costuma ter taxas mais altas, parte dos trabalhadores passou a comparar opções com algum tipo de garantia ou previsibilidade de pagamento. Esse movimento ocorre em paralelo à resiliência do mercado formal de trabalho, que segue sendo acompanhado por indicadores como o Caged nas análises do Banco Central sobre mobilidade e rendimento no emprego privado com carteira assinada.

Outro fator que ajuda a explicar a procura é a facilidade operacional. Hoje, a contratação e a migração de contratos antigos podem ser feitas em ambiente digital, o que reduziu barreiras de acesso e tornou mais simples a comparação entre ofertas. Desde 25 de abril de 2025, trabalhadores que já tinham empréstimos com desconto em folha passaram a poder migrar contratos existentes para o novo modelo, dentro das regras definidas pelo governo.

Especialistas em finanças pessoais costumam alertar, porém, que crédito mais barato não significa crédito sem risco. Como as parcelas são descontadas diretamente do salário, o trabalhador perde parte da renda mensal antes mesmo de receber o valor líquido. Em caso de desligamento, o próprio governo informa que o desconto pode incidir sobre verbas rescisórias, observado o limite legal. Por isso, a recomendação continua sendo a mesma: entender o custo efetivo total, avaliar a duração do contrato e evitar usar empréstimo de longo prazo para cobrir gastos recorrentes do dia a dia.

Esse cuidado se torna ainda mais importante porque o aumento do acesso não elimina a necessidade de planejamento. O crédito pode ser útil para quitar dívidas mais caras, consolidar pagamentos e recuperar previsibilidade no orçamento, mas também pode virar problema quando contratado sem análise da renda disponível. Nesse sentido, a popularização do crédito do trabalhador reforça um desafio antigo do mercado: ampliar a inclusão financeira sem estimular o endividamento por impulso.

Para 2026, a tendência é que o debate sobre consignado privado continue avançando, especialmente porque a modalidade passou a ocupar um espaço mais estratégico na política de crédito voltada ao emprego formal. O tema interessa não apenas aos trabalhadores, mas também a empresas, instituições financeiras e ao próprio governo, que veem nesse tipo de operação uma forma de ampliar acesso a recursos com menor inadimplência potencial. O desafio, daqui para frente, será equilibrar expansão, transparência e educação financeira.